Irmã venerável Maria de Ágreda (Espanha, 1602-1665). Obra: "Mística Cidade de Deus. Ed. Mosteiro Portaceli. 2011." [4º Tomo - 3ª Parte - 7º Livro - Cap. 15 - pág. 165:][Maria de Ágreda diz:] É verdade, que todas as boas obras feitas em pecado são mortas, e armas fraquíssimas contra o demônio. Não obstante, sempre possuem alguma congruência, ainda que remota, pela honestidade de seus objetos e boas finalidades. Com elas, o pecador está menos indisposto do que sem elas.
Além disto, quando apresentadas pelos anjos, e ainda mais por Maria Santíssima, estas obras adquirem certos vislumbres de vida, de modo que o Senhor as olha muito diferentemente do que ao vê-las no pecador. E, ainda que não as leve em consideração por si mesmas, recebe-as em atenção de quem lhas oferece.
[4º Tomo - 3ª Parte - 7º Livro - Cap. 15 - pág. 169/170:][Nossa Senhora diz a Maria de Ágreda:] O bem, arma para os bem-aventurados. O mal, arma para os demônios: 301.
De qualquer bem que a criatura faz, nós os bem-aventurados, nos servimos como argumento para defendê-la de seus inimigos, e para pedir à misericórdia divina que a olhe e tire do pecado. Os santos também acodem, quando são invocados de todo o coração, nos perigos e necessidades, e assim respondem à afetuosa devoção que se tem por eles. Se os santos, pela caridade que possuem, são tão inclinados a favorecer os homens, entre os perigos e contradições que os demônios lhes suscitam; não te admires, caríssima, que Eu seja tão piedosa com os pecadores, que me chamam e recorrem à minha clemência, para obterem a salvação. Eu a desejo infinitamente mais que eles mesmos.
Não se podem contar os que Eu arranquei ao dragão infernal, por me terem tido devoção, ainda que fosse apenas rezar uma Ave-Maria, ou dizer uma só palavra para me honrar ou invocar. Tanta é minha caridade por eles que, se a tempo, sinceramente me chamassem, ninguém pereceria. Os pecadores e réprobos, porém, não fazem isso. As feridas espirituais do pecado, não sendo sensíveis ao corpo, não os incomodam, e quanto mais repetidas, menos dor e sentimento produzem. Depois do primeiro pecado, o segundo já é ferimento em corpo morto, que não sabe temer, evitar, nem sentir o dano que recebe.
Desprezo das oportunidades de salvação: 302. Esta duríssima insensibilidade produz nos homens o esquecimento de sua eterna condenação, e da sanha com que os demônios os procuram para suas vítimas. Sem se perguntar em que baseiam esta falsa segurança, dormem e descansam em seu próprio mal, quando deveriam teme-lo e fazer séria ponderação da eterna morte que os ameaça tão de perto.
Assim, pelo menos, recorreriam ao Senhor, a Mim e aos Santos, para pedir o remédio. Não obstante, nem isto, que custa pouco, sabem fazer, até o tempo que não o podem obter,
porque o pedem sem as condições convenientes para lhes ser concedido. Para alguns, alcanço a salvação no último instante, porque sei quanto custou a meu Filho Santíssimo redimi-los.
Este privilégio, todavia, não pode ser regra geral para todos, e assim condenam-se tantos filhos da Igreja. Ingratos e insipientes, desprezam tantos e tão eficazes meios, como lhes oferece a divina clemência no mais oportuno tempo. Ser-lhes-á grande remorso ter conhecido a misericórdia do Altíssimo, a piedade com que os quero socorrer, e
a caridade dos santos para interceder por eles. Não quiseram dar glória a Deus; nem a Mim e aos anjos e Santos o gozo que teríamos em salvá-los, se nos tivessem chamado de todo o coração.