Irmã venerável Maria de Ágreda (Espanha, 1602-1665). Obra: "Mística Cidade de Deus. Ed. Mosteiro Portaceli. 2011." [3º Tomo - 2ª Parte - 6º Livro - Cap. 20 - pág. 355/356:][Maria de Ágreda diz:] A realeza de Jesus: 1343. Entre os mistérios do Senhor, ocultos à humana sabedoria, causa grande admiração que a cólera dos judeus, homens sensíveis de carne e sangue como nós, não se aplacasse vendo Cristo, nosso bem, tão ferido pelos açoites; que objeto tão doloroso não os movesse à natural compaixão; que pelo contrário, a inveja ainda encontrou matéria para inventar novos modos de injúrias e tormentos contra quem já estava de tal modo maltratado. Tão implacável era seu ódio, que logo excogitaram outro novo e inaudito gênero de suplício. Dirigiram-se ao pretório e na presença dos conselheiros, disseram a Pilatos: Este sedutor do povo, Jesus Nazareno quis, com seus embustes e vaidade, que o reconhecessem por Rei dos judeus.
Para humilhar sua soberba e desvanecer sua presunção, queremos que nos permitas colocar-lhe as insígnias de sua imaginária realeza. Consentiu Pilatos na injusta pretensão dos judeus, dando-lhes liberdade de fazerem o que entendessem.
Coroação de espinhos: 1344. Levaram Jesus, nosso Salvador, ao pretório e o despiram de novo com a mesma crueldade e desacato.
Vestiram-lhe uma roupa de púrpura, muito rasgada e suja, simulando uma veste real. Puseram-lhe na sagrada cabeça um maço de espinhos emaranhados à guisa de coroa (Jo 19,2). Eram ramos de espinhos muito agudos e duros. Apertaram-no, de tal maneira, que muitos penetraram até o crânio. Alguns atingiram os ouvidos e os olhos, tendo sido esta uma das maiores torturas padecidas pelo divino Mestre. Por cetro real, puseram-lhe na mão direita um pedaço de bambu qualquer. Para completar a roupagem, atiraram-lhe sobre os ombros um manto de cor roxa, semelhante às capas que se usam na Igreja, porque esta veste também pertencia ao ornamento da dignidade real. Com toda esta zombaria, os pérfidos judeus improvisaram rei de comédia a quem, por natureza e por todos os títulos, era o verdadeiro Rei dos reis e Senhor dos senhores (Apoc 19,16). Reuniu-se toda a milícia, estando presentes também pontífices e fariseus, e colocando Jesus no centro, com desmedida irrisão e mofa o cobriram de blasfêmias (Jo 19, 23; Mt 27, 29; Mc 15, 19). Uns, ajoelhando-se diziam, zombando: Deus te salve, Rei dos judeus.
Outros lhe davam bofetadas; estes, lhe tiravam das mãos o bambu e lhe batiam na cabeça dolorida. Aqueles lhe atiravam imundíssimas cusparadas, e todos o injuriavam e desprezavam com diferentes contumélias, inspiradas pela fúria diabólica.