Irmã venerável Maria de Ágreda (Espanha, 1602-1665). Obra: "Mística Cidade de Deus. Ed. Mosteiro Portaceli. 2011." [3º Tomo - 2ª Parte - 6º Livro - Cap. 21 - pág. 364/365:]
[Maria de Ágreda diz:] Jesus recebe a cruz: 1360. Lida a sentença de Pilatos, em alta voz, na presença de todo o povo, colocaram sobre os chagados ombros de Jesus, a pesada cruz na qual seria crucificado. Para poder levá-la, desataram-lhe as mãos, não, porém, o corpo. Conservaram-no amarrado e o iam puxando pelas cordas que, para maior crueldade, passaram-nas em duas voltas ao pescoço.
Tinha a cruz quinze pés de largura, grossa, de madeira muito pesada.
[3º Tomo - 2ª Parte - 6º Livro - Cap. 22 - pág. 374/375:]
[Maria de Ágreda diz:] Jesus é despojado das vestes 1378. Chegara a hora sexta, que corresponde ao meio-dia, e os verdugos despiram o Salvador da túnica inconsútil e das outras vestes.
Como a túnica não tinha abertura, procuraram despi-la pela cabeça sem tirar a coroa de espinhos. Puxando violentamente, arrancaram a coroa com a túnica, com extrema crueldade. Abriram-se de novo as feridas da sagrada cabeça e em algumas ficaram as pontas dos espinhos que, sendo tão duras e aceradas, quebraram-se com a força dos verdugos ao arrancar a túnica e a coroa. Com ímpia crueldade, a repuseram na cabeça, abrindo chagas sobre chagas. Além destas, reabriram todas as do corpo santíssimo. A túnica apegara-se a ele, e o arrancá-la, como diz David, foi recrudescer a dor de suas feridas (SI 48,27). Quatro vezes, durante a paixão, tiraram e puseram as vestes no Senhor. A primeira, para açoitá-lo na coluna; a segunda, para lhe por a púrpura de escárnio; a terceira, quando lha tiraram para lhe tornar a vestir a túnica; a quarta, no Calvário para ser crucificado. Nesta última vez sofreu mais, porque as feridas eram mais numerosas, sua humanidade santíssima estava mais enfraquecida e no monte Calvário ficou mais desabrigada e exposta ao vento, que também teve per- missão para a afligir com o frio.
Maria impede a nudez completa de Jesus: 1379.
A todas estas penas, ajuntava-se o constrangimento de estar despido na presença de sua Mãe santíssima, das devotas mulheres que a acompanhavam e da multidão. Ficou só com a peça que sua Mãe santíssima lhe pusera sob a túnica, quando criança, no Egito. Nem quando o açoitaram puderam os verdugos tirá-la, como fica dito, nem para o crucificar, e com ela foi ao sepulcro, como me foi dito muitas vezes. Para morrer em absoluta pobreza, sem coisa alguma ter, de quantas era o próprio Criador e verdadeiro Senhor, por sua vontade, o Salvador morreria totalmente nu até sem aquela peça.
Interveio, porém, a vontade de sua Mãe santíssima que lhe pediu conservá-la. Acedeu Cristo nosso Senhor, e com esta obediência filial satisfez a suma pobreza na qual desejava morrer.
[...] [3º Tomo - 2ª Parte - 6º Livro - Cap. 22 - pág. 377:]
[Maria de Ágreda diz:] Homens, instrumentos do diabo: 1383.
Feitos na santa cruz os três buracos, mandaram segunda vez que o Senhor se estendesse sobre ela para o pregarem. O sumo e poderoso Rei, artífice da paciência, obedeceu e deitou-se na cruz, estendendo os braços sobre o feliz madeiro, entregue a vontade dos fautores de sua morte. Estava tão desfalecido, desfigurado e exangue que, se na impiedade ferocíssima daqueles homens houvesse algum lugar para a natural razão e humanidade, não era possível que a crueldade pudesse ainda encontrar o que fazer com a mansidão, humildade, chagas e dores do inocente Cordeiro. Entretanto, não foi assim. Judeus e algozes — oh! temíveis e ocultíssimos juízos do Senhor! — estavam transformados no ódio mortal e obstinado dos demônios, despidos de sentimentos de homens sensíveis e terrenos, agindo com indignação e furor diabólico.
Jesus é cravado na cruz: 1384. Tomando a mão do Salvador, um dos verdugos assentou-a sobre o orifício da cruz e outro a cravou, enfiando à marteladas, na palma do Senhor um grosso cravo de quinas.
Romperam-se as veias e nervos, quebraram-se e deslocaram-se os ossos daquela mão sagrada que fez os céus e tudo quanto existe.
Ao irem cravar a outra mão, ela não alcançava o orifício, pois além dos nervos se terem contraído, haviam distanciado o buraco por maldade, como acima se disse. Tomaram, então, a corrente com que o mansíssimo Senhor estivera preso desde o horto e lhe prenderam o pulso na extremidade que terminava em algemas.
Com inaudita crueldade, puxaram o braço até a mão alcançar o orifício, cravando-a com outro cravo.
Passaram aos pés. Puseram-nos um sobre o outro e puxando com a mesma corrente, com muita força e crueldade, cravaram-nos juntos com o terceiro cravo, um pouco maior que os outros. Ficou aquele sagrado corpo ao qual estava unida a divindade, pregado na santa cruz. Seus membros deificados, e formados pelo Espírito Santo, ficaram tão deslocados e fora de seu lugar natural, que se lhe poderiam contar todos os ossos (SI 21, 18). Desarticularam-se os do peito, dos ombros e das costas, e todos se moveram de seu lugar, cedendo à violenta crueldade dos verdugos.
[3º Tomo - 2ª Parte - 6º Livro - Cap. 22 - pág. 378/379:]
[Maria de Ágreda diz:] A cruz é virada para arrebitar os cravos: 1386. Pregado o Senhor na cruz, para que os cravos não fossem arrancados com o peso do divino corpo, resolveram os algozes recurvar as pontas que tinham varado o sagrado madeiro. Começaram a levantar a cruz para virá-la,
lançando contra a terra o Senhor crucificado. Esta nova crueldade abalou os circunstantes e da turba, movida por compaixão, elevou-se grande clamor. A dolo- rosa e compassiva Mãe acudiu a tão desmedida impiedade, e pediu ao eterno Pai não a permitisse como os verdugos intentavam. Mandou aos santos anjos socorrer seu Criador e tudo se executou como a grande Rainha ordenou. Virando os algozes a cruz, para que o corpo cravado caísse com o rosto em terra, os anjos a sustentaram rente ao solo cheio de pedras e lixo. Com isto o Senhor não tocou sua divina face nem no chão, nem nos pedregulhos. Os verdugos dobraram as pontas dos cravos, sem perceber o prodígio que lhes foi ocultado. O corpo estava tão rente à terra e a cruz tão firmemente sustentada pelos anjos, que os malvados judeus acreditaram estar no duro solo.
Elevação da cruz: 1387. Encostaram a cruz com o divino Crucificado à cavidade em que seria arvorada. Alguns com os ombros, outros com alabardas e lanças, elevaram a cruz fixando-a na abertura do solo. Ficou nossa verdadeira salvação e vida no ar, pendente do sagrado madeiro, à vista de inumerável povo de diversas raças e nações. Não quero omitir outra crueldade que conheci terem usado com o Senhor quando o levantaram.
Com as lanças e as outras armas o feriram, fazendo-lhe profundas feridas debaixo dos braços, pois fixaram os ferros na carne para levantá-lo com a cruz. Recrudesceu o clamor da multidão com maiores gritos e confusão: os judeus blasfemavam, os compassivos se lamentavam, os estrangeiros se admiravam; uns convidavam a assistir o espetáculo, outros não o podiam olhar pela dor; havia os que o consideravam uma lição corretiva, outros o chamavam justo. Esta diversidade de opiniões e palavras eram flechas que se enterravam no coração da aflita Mãe.
O sagrado corpo derramava muito sangue pelas feridas dos cravos. Com a queda da cruz no buraco, estremeceu, abrindo-se novamente suas chagas. Ficaram assim mais abertas as fontes convidando-nos por Isaías (12,3) a haurir delas, com alegria, as águas para apagar a sede e lavar as manchas de nossas culpas. Ninguém tem desculpa se não se apressar em beber, pois são oferecidas sem custar prata ou ouro (Is 40,1), dadas gratuitamente, só pela vontade de as receber.