Irmã venerável Maria de Ágreda (Espanha, 1602-1665). Obra: "Mística Cidade de Deus. Ed. Mosteiro Portaceli. 2011." [4º Tomo - 3ª Parte - 8º Livro - Cap. 21 - pág. 395/397:][Maria de Ágreda diz:] Conveniências da ressurreição e assunção de Maria: 765.
No terceiro dia em que a alma de Maria santíssima gozava desta glória para nunca mais deixá-la, o Senhor manifestou aos santos sua vontade divina, de que Ela voltasse ao mundo e ressuscitasse seu sagrado corpo.
Em corpo e alma seria elevada, outra vez, à destra de seu Filho santíssimo, sem esperar a ressurreição geral dos mortos. A conveniência deste favor, sua relação com os demais privilégios que a Rainha do céu recebeu e com sua sobre-excelente dignidade, não podia ser ignorado pelos santos. Até aos mortais se faz tão crível, que teríamos por ímpio e estulto ao que pretendesse negá-la, lembrando-nos ainda que a Igreja aprovou esta crença
[Nota de rodapé da tradutora: “Na época da Escritora, a Assunção de Nossa Senhora ainda não era dogma de fé. Foi definido pelo Papa Pio XII, em 1º de Novembro de 1950”]. Conheceram-na os bem-aventurados com maior clareza, e também o tempo e hora em que se realizaria, quando, em Deus, foi-lhes manifestado seu eterno decreto.
Na hora marcada, Cristo, nosso Salvador desceu do céu levando à sua direita a alma de sua bem-aventurada Mãe, com muitas legiões de anjos e os antigos pais e profetas. Chegaram ao sepulcro no vale de Josafá, e estando todos diante do virginal corpo, o Senhor falou aos santos:
Ressurreição de Maria: 766. Minha Mãe foi concebida sem mancha de pecado, para que de sua virginal substância, puríssima e sem mácula, me vestisse da humanidade na qual vim ao mundo, para o redimir do pecado.
Minha carne é sua carne. Ela cooperou comigo nas obras da Redenção.
Devo ressuscitá-la como Eu ressuscitei dos mortos, e seja no mesmo tempo e hora, porque em tudo quero fazê-la semelhante a Mim. Os antigos santos da natureza humana agradeceram este favor, com novos cânticos de louvor e glória ao Senhor. Os que, principalmente, se distinguiram neste agradecimento, foram nossos primeiros pais Adão e Eva, San"Ana, São Joaquim e São José que tinham particulares títulos e motivos, para exaltar ao Senhor naquela maravilha de sua onipotência.
Ao império de Cristo, a alma puríssima da Rainha entrou no virginal corpo, informou-o e ressuscitou-o. Deu-lhe nova vida, imortal e gloriosa, comunicando-lhe os quatro dotes de claridade, impassibilidade, agilidade e subtileza, correspondentes à glória da alma, da qual se derivam aos corpos.
Recíproca doação entre Cristo e Maria: 767.
Com estes dotes gloriosos saiu Maria santíssima, em corpo e alma, do sepulcro, sem remover a pedra que o fechava, ficando a túnica e toalha estendidas na forma em que cobriam seu sagrado corpo. Por ser impossível descrever seu brilho e beleza, não me detenho nisso. Basta-me dizer que, como a divina Mãe deu a seu Filho santíssimo a forma de homem em seu virginal tálamo, pura, limpa, sem mancha e impecável para redimir o mundo: assim, em paga desta dádiva, o mesmo Senhor lhe deu, nesta ressurreição e nova geração, outra glória e formosura semelhante a d"Ele. Nesta troca tão misteriosa e divina, cada qual fez o que pôde: Maria santíssima gerou a Cristo assimilado a si mesma, enquanto passível; Cristo a ressuscitou, comunicando-lhe de sua glória, quanto Ela pôde receber na capacidade de pura criatura.
Assunção de Maria ao céu: 768.
Logo se formou soleníssima procissão que, do sepulcro pela região do ar, ao som de celestial música, foi subindo para o céu empíreo. Era a mesma hora em que ressuscitou Cristo, nosso Salvador, no domingo imediato, depois da meia-noite. Por este motivo, fora alguns apóstolos que velavam o sagrado sepulcro,
ninguém percebeu o que acontecera. A procissão dos anjos e santos entrou no céu. No fim dela, vinham Cristo, nosso Salvador tendo à direita a Rainha vestida de ouro, como diz David (SI 44, 10), e tão formosa, que foi a admiração da corte celeste. Todos se voltaram para contemplá-la e bendizê-la com jubilosos cânticos de louvor. Ali se ouviram aqueles misteriosos elogios escritos por Salomão: Saí, filha de Sião, para ver vossa Rainha, a quem louvam as estrelas matutinas e festejam os filhos do Altíssimo. Quem é esta que sobe do deserto, qual uma névoa de perfumes (Ct 3, 6)? Quem é esta que se levanta como a aurora, mais formosa que a lua, escolhida como o sol e terrível como muitos esquadrões perfilados (Ct 6,9)? Quem é esta que sobe do deserto, apoiada a seu dileto, transbordando delícias (Ct 8, 5)? Quem é esta, em quem a Divindade encontrou mais complacência do que em todas as criaturas, e a eleva, acima de todas, ao trono de sua inacessível luz e majestade? Oh! maravilha nunca vista nestes céus! Oh! novidade digna da infinita sabedoria! Oh! prodígio desta onipotência que assim a exaltas e engrandeces!
Maria recebida pela Santíssima Trindade: 769.
Com esta glória, chegou Maria santíssima, em corpo e alma, ao trono real da santíssima Trindade, onde foi recebida pelas três divinas Pessoas, em amplexo indissolúvel. O eterno Pai lhe disse: Sobe mais alto que todas as criaturas, minha escolhida, minha filha e minha pomba. O Verbo humanado: Minha Mãe, de quem recebi a natureza humana e o retorno de minhas obras que perfeitamente imitaste, recebe agora de minha mão a recompensa que mereceste. O Espírito Santo: Minha amantíssima Esposa, entra no gozo eterno correspondente a teu fidelíssimo amor, e goza sem receios, pois já passou o inverno do padecer (Ct 2, 11) e chegaste à posse eterna de nossos abraços. Ali ficou Maria Santíssima absorta entre as divinas Pessoas, mergulhada naquele pélago interminável e abissal da Divindade, enquanto os santos enchiam-se de admiração e novo gozo acidental.