Juliana de Norwich (Inglaterra, 1342-1416). Obra: "Revelações do Amor Divino. Ed. Paulus. 2018 — Coleção Clássicos do cristianismo."
[Capítulo 4 – Primeira revelação – pág. (pdf) 25/26:][Juliana de Norwich diz:] Nessa visão, ele trouxe nossa abençoada Senhora ao meu entendimento. Eu a vi espiritualmente, como se tivesse corpo, uma simples donzela dócil, jovem de idade e pouco maior que uma criança, na estatura que estava quando ela concebeu. Deus também mostrou parte da sabedoria e verdade da alma dela, e disso entendi a reverente contemplação na qual ela contempla seu Deus e Criador, maravilhando-se com grande respeito de que ele seria nascido dela, que era uma simples criatura de sua criação. E essa sabedoria e verdade, isto é, conhecer a grandeza do seu Criador e a pequenez dela que foi criada, levou-a a dizer muito mansamente a Gabriel: “Estou aqui, serva de Deus!”.
Nessa visão, entendi verdadeiramente que ela é, em valor e graça, maior que tudo mais que Deus criou abaixo dela, pois acima dela não há nada criado, exceto a bendita humanidade de Cristo, segundo vi.
[Capítulo 7 – Primeira revelação – pág. (pdf) 31:][Juliana de Norwich diz:] A visão não é outra coisa senão a fé, nem é mais, nem é menos. E para nos ensinar isso, segundo compreendi,
Nosso Senhor Deus me mostrou ao mesmo tempo Nossa Senhora Santa Maria, isto é, a mais alta sabedoria e verdade que ela tinha ao contemplar seu Criador, contemplando quão grandioso, quão sagrado, quão poderoso e quão bondoso era seu Deus. A grandeza e nobreza da contemplação de Deus a preencheu com um reverente temor, e com isso se viu a si mesma tão pequena e tão humilde, tão simples e tão pobre em consideração ao Senhor Deus, que essa reverência a preencheu com humildade. E assim,
pelo fundamento da humildade, foi preenchida com a graça e com todos os tipos de virtudes, e ultrapassou a todas as criaturas.
[Capítulo 25 – Décima primeira revelação – pág. (pdf) 66/67:][Juliana de Norwich diz:] “Eu sei bem que desejas ver minha bendita Mãe. Desejas ver nela como te amei?”
E com essa mesma disposição de júbilo e alegria, nosso bom Senhor olhou abaixo do flanco direito e trouxe à minha mente o local onde Nossa Senhora permaneceu no tempo de sua paixão, e disse: “Desejas vê-la?”. E essas doces palavras foram como se tivesse dito: “
Eu sei bem que desejas ver minha bendita Mãe, pois, depois de mim, ela é a mais alta alegria que eu poderia te mostrar, e é o maior prazer e a maior honra para mim; e ela é a mais desejada de ser vista das minhas criaturas abençoadas”. E pelo mais alto, maravilhoso e singular amor que ele tem para essa sua doce Virgem, sua bendita Mãe, Nossa Senhora Santa Maria, a mostrou rejubilando-se grandemente, como entendido pelo significado dessas doces palavras, como se dissesse: “Desejas ver como eu a amei, para que tenhas tua mais poderosa alegria no amor que tenho nela e ela em mim?”.
E, também, para mais entendimento meu dessas doces palavras, devemos entender que Nosso Senhor fala para toda a humanidade que será salva, como se todos fossem uma única pessoa, como se dissesse: “Desejas ver nela como te amei?
Por teu amor eu a fiz tão elevada, tão nobre e tão valiosa, e isso me satisfaz, e então desejo que tu também te satisfaças nisso”.
Pois depois dele próprio, ela é a mais alegre visão.
Mas não aprendi muito sobre isso para ver sua presença corporal enquanto estou aqui, mas sim as virtudes de sua alma abençoada, sua verdade, sabedoria, caridade, pelas quais eu poderia aprender a conhecer sobre eu mesma e reverentemente temer a meu Deus. E quando nosso bom Senhor mostrou isso, e disse as palavras “desejas vê-la?”, respondi e disse: “Sim, meu bom Senhor, agradeço a ti; sim, bom Senhor, se for teu desejo”. Frequentemente, supliquei por isso e acreditei tê-la visto em sua presença física, mas não a vi assim. E Jesus, naquelas palavras, mostrou-me espiritualmente a visão dela; eu a tinha visto um pouco antes, pequena e bem simples,
então agora a mostrou alta, nobre e gloriosa, e agradando a ele acima de todas as demais criaturas.
E ele deseja que isso seja conhecido, que, então, todos aqueles que se satisfazem nele se satisfaçam nela e na satisfação que ele tinha nela e ela nele. E para meu melhor entendimento, ele me mostrou este exemplo: “Quando um homem ama uma criatura particular acima de todas as outras, deseja fazer com que todas as demais criaturas amem e se alegrem naquela criatura que ele ama tão enormemente”. E essas palavras que Jesus disse, “desejas vê-la?”, pareceram-me as mais satisfatórias que ele poderia ter me dado sobre ela, naquela visão espiritual que me deu dela. Pois Nosso Senhor não me mostrou nada em especial além de Nossa Senhora Santa Maria, e mostrou-a três vezes. A primeira vez quando estava ela parindo, a segunda foi como se ela estivesse sofrendo na cruz e a terceira como ela está agora, em satisfação, adoração e alegria.