Juliana de Norwich (Inglaterra, 1342-1416). Obra: "Revelações do Amor Divino. Ed. Paulus. 2018 — Coleção Clássicos do cristianismo."
[Capítulo 16 – Oitava revelação – pág. (pdf) 50/51:][Juliana de Norwich diz:] Uma parte de sua paixão.
Depois disso,
Cristo me mostrou uma parte de sua paixão no instante próximo a sua morte. Vi sua dócil face como se estivesse seca e sem sangue, como um pálido moribundo. Depois, mais pálido, morto, abatido, e se tornou mais morto, até ficar azul, e então mais marrom, meio azulado, como se a carne já estivesse profundamente morta. Sua paixão mostrou mais especialmente seu rosto abençoado e principalmente seus lábios; vi neles essas quatro cores, embora antes fossem frescos, corados e alegres, aos meus olhos. Foi uma lamentável mudança de se ver, esse profundo e intenso morrer. E também havia uma interna mistura coagulada e seca, na minha visão, e o delicado corpo estava marrom e preto, longe de estar bonito com a cor vital dele mesmo, morrendo seco. Pois naquela mesma hora em que Nosso Senhor e abençoado Salvador morreu na Cruz, havia um vento seco, forte e incrivelmente frio, como vi, e por todo o tempo o precioso sangue sangrou do seu dócil corpo que poderia falecer a partir disso, embora ainda tivesse uma mistura na doce carne do Cristo, como foi mostrado.
O sangramento secou por dentro, pela dor, e o sopro do vento e o frio vindo de fora encontraram o delicado corpo de Cristo. E essas quatro horas – duas de sangramento interno – secaram a carne de Cristo, pelo processo do tempo. E embora essa dor fosse amarga e aguda, foi permanente, na minha visão, e dolorosamente secou todo o fluido vital da carne de Cristo. Então, vi a doce carne secar, parecendo secar uma parte após outra, com dores horríveis. E enquanto permanecia algum fluido vital na carne de Cristo, ele padeceu de dor.
Esse longo definhamento pareceu a mim como se ele tivesse ficado sete noites morrendo, secando quase a ponto de morrer, sofrendo a última dor. E quando digo que me parecia como se ele tivesse estado sete noites morrendo, quis dizer que o delicado corpo estava tão descolorido, tão seco e magro, tão cadavérico e digno de compaixão, como se morresse havia sete noites, continuamente morrendo. E pareceu-me que o secar da carne de Cristo foi a principal dor, a última de sua paixão.
[Capítulo 17 – Oitava revelação – pág. (pdf) 52/53:][Juliana de Norwich diz:] Como poderia qualquer dor ser maior para mim do que vê-lo sofrer, ele que é toda a minha vida, toda a minha felicidade e toda a minha alegria?
E nesse processo de morrer,
foram trazidas à minha mente as palavras de Cristo: “Tenho sede”. Vi em Cristo uma dupla sede, uma corporal, outra espiritual; dessa última falarei no capítulo trinta e um. Pois essas palavras foram mostradas para a sede corporal, que entendi ser causada pela falta da mistura. Pois a carne abençoada e os ossos foram deixados todos sem sangue e sem a mistura. O abençoado corpo morreu sozinho, com a soltura das unhas e o peso do corpo. Pois entendi que, pela delicadeza das mãos e dos pés suaves, e pela grave dureza das unhas, as chagas aumentaram e o corpo caiu, pelo longo tempo suspenso. E com a perfuração e a pressão da cabeça, amarrada à coroa toda cheia de sangue seco, com o suave cabelo e a carne seca agarrados aos espinhos, e os espinhos agarrados à carne moribunda. E, no começo, enquanto a carne era fresca e sangrava, a contínua posição dos espinhos tornava as feridas maiores. E então vi que a doce pele e a carne delicada, com o cabelo e o sangue, se ergueram todos e se soltaram dos ossos, com os espinhos, e foram feitos em muitas partes, feito uma roupa que fosse cair, como se estivesse pendendo por peso e frouxidão, enquanto tinha o fluido natural. E isso foi grande tristeza e pavor para mim, pois me pareceu que eu não sobreviveria se visse aquela queda. Como foi feita, não vi, mas entendi que foi causada pelos espinhos afiados e a violenta e triste colocação das guirlandas de espinhos, severamente, sem piedade.
Isso continuou um pouco, e logo começou a mudar, e contemplei e me maravilhei com aquilo. E então vi que isso foi porque começou a secar e perdeu parte do seu peso e a fixação da guirlanda. E assim cercou-se tudo ao seu redor, como se fosse guirlanda sobre guirlanda. A guirlanda de espinhos estava seca com o sangue, e a guirlanda de sangue e a cabeça tinham a mesma cor, como sangue coagulado quando está seco. A pele da carne que foi mostrada (da face e do corpo) estava coberta com pequenas dobras e uma cor amarronzada, como uma tábua seca quando está velha, e a face estava mais marrom do que o corpo.
Vi quatro razões pelas quais o corpo secou. A primeira foi a ausência de sangue; a segunda foi a dor que se seguiu depois; a terceira foi por estar pendurado no ar, como quando homens penduram roupas para secar; a quarta era a natureza corporal pedindo líquido. E não havia tipo algum de conforto para ele em todas as suas aflições e angústias. Ah, dura e triste foi sua dor, mas muito mais duro e triste foi quando o fluido acabou e começou a secar, murchando.
Essas foram as dores que vieram à cabeça abençoada: a primeira agiu para secar, enquanto tinha mistura, e a outra, lenta, murchando e secando com o sopro do vento de fora, que o secou e o machucou com frio, mais do que meu coração pode imaginar.
E das outras dores, vi que tudo o que posso dizer é tão pouco, porque isso não poderia mesmo ser descrito.