Juliana de Norwich (Inglaterra, 1342-1416). Obra: "Revelações do Amor Divino. Ed. Paulus. 2018 — Coleção Clássicos do cristianismo."
[Capítulo 49 – pág. (pdf) 111/112:][Juliana de Norwich diz:] Embora nos sintamos miseráveis, em disputas e brigas, ainda estamos de todos os modos encerrados na mansidão de Deus e em sua doçura, benignidade e graça. Pois vi bem certamente que toda nossa amizade eterna, nosso lugar, nossa vida e nosso ser estão em Deus.
Pois aquela mesma bondade infinita que nos sustenta quando pecamos, para não perecermos, essa mesma bondade infinita continuamente nos oferece a paz contra nossa ira e nossa perversa queda, nos faz ver nossa necessidade com verdadeiro temor e poderosamente nos leva a procurar perdão em Deus, com o gracioso desejo de nossa salvação.
E pela ira e a contrariedade que há em nós, estamos agora em tribulação, angústia e aflição, caindo por nossa cegueira e fragilidade, mas ainda estamos seguramente salvos pela misericordiosa proteção de Deus, pela qual não perecemos. Mas não estaremos alegremente seguros, tendo nossa alegria infinita, até estarmos todos em paz e amor, isto é, totalmente agradecidos a Deus por suas obras e seus julgamentos, e amando e tendo paz com nosso eu e com nossos semelhantes cristãos e com todos que Deus ama, como convém ao amor. E a bondade de Deus faz isso em nós.
Assim, vi que Deus é nossa própria paz e é nosso seguro protetor quando não estamos em paz, e continuamente trabalha para nos trazer a paz eterna. E assim, quando nós, pelo trabalho da misericórdia e da graça, somos feitos humildes e mansos, estamos totalmente seguros; repentinamente é a alma unida a Deus quando está verdadeiramente pacificada e em amor,
pois nele não é encontrada nenhuma ira. E assim vi que, quando estamos todos em paz e amor, não encontramos contrariedade, nem nada que leva às contrariedades que estão agora em nós.
Nosso Senhor, por sua bondade, faz toda contrariedade ser totalmente valiosa para nós. Pois a contrariedade é a causa de nossas tribulações e toda nossa aflição, e Nosso Senhor Jesus as toma e as envia ao céu, e lá se tornam mais doces e deleitáveis do que o coração pode pensar e a língua pode dizer. E quando lá chegarmos, as encontraremos prontas, tudo transformado em autêntica beleza e louvores eternos. Assim, é Deus nosso inabalável fundamento, e será nossa completa alegria e nos fará imutáveis como ele quando estivermos lá.
[Capítulo 61 – pág. (pdf) 147/148:][Juliana de Norwich diz:] E quando caímos, apressadamente nos levanta por seu amável chamado e gracioso contato. E quando estamos assim fortalecidos por seu doce trabalho, com todo nosso desejo o escolhemos, por sua doce graça, para sermos seus servos e amantes, perenemente, sem fim.
E depois disso, ele permite a alguns de nós cair mais dolorosamente e mais terrivelmente do que caímos antes, como nos parece. E então cremos (aqueles de nós que não são sábios) que era como nada tudo o que havíamos começado.
Mas não é bem assim, pois é necessária a nossa queda e é necessário que a vejamos. Porque, se nunca caíssemos, não saberíamos quão fracos e miseráveis somos por nós mesmos, e também não conheceríamos o maravilhoso amor do nosso Criador. Pois veremos realmente no céu, eternamente, que temos pecado terrivelmente nesta vida e, não obstante, veremos que nunca estivemos feridos em seu amor, nunca perdemos valor a seus olhos. E pelo exame dessa nossa queda teremos um elevado e maravilhoso conhecimento do amor eterno de Deus, pois tão forte e maravilhoso é aquele amor que não pode ser quebrado pela transgressão, nem nunca será. E este é um entendimento para o nosso próprio benefício. O outro são a humildade e a delicadeza que obteremos pela visão de nossa queda, pois por ela seremos grandemente elevados ao céu, algo a que nunca poderíamos ter chegado sem tal delicadeza.
E, portanto, é preciso vê-la, e se não a vemos, ainda que caíssemos não obteríamos disso qualquer proveito. E é comum primeiro cairmos e depois vermos a queda, e ambas as coisas pela misericórdia de Deus.