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Antigo Testamento X Novo Testamento (antiga aliança, nova aliança, lei)

 Por que o Deus do Antigo Testamento é tão mau e sanguinário?

Padre Paulo Ricardo

No vídeo abaixo, o Padre Paulo Ricardo explica que a Igreja refutou a doutrina de Marcião (o marcionismo) que queria contrapor entre si o Antigo e o Novo Testamento. Marcião propôs que o Deus do AT, descrito como cruel e sanguinário, era distinto do Deus bondoso e misericordioso apresentado no NT. Mas a verdade é que a idéia de Marcião não corresponde à realidade das Escrituras, pois o AT, em algumas passagens, também descreve Deus como bondoso e misericordioso, ao passo que o NT, também em algumas passagens, o descreve como sendo um juiz severo, que faz justiça. O Papa Bento XVI, em sua exortação apostólica VERBUM DOMINI (itens 40 a 42), nos ensina que o NT é a continuação do AT, sendo a vinda de Cristo, o Messias prometido, o cumprimento das profecias. Esse cumprimento, entretanto, se deu de uma forma tão perfeita que surpreendeu os judeus, causando, inclusive, algumas rupturas. Os cristãos encontram Jesus no AT de forma velada ao contrário dos judeus que não conseguem encontrá-lo. Em relação aos atos de violência descritos no AT (que podem passar uma ideia errada de Deus), o Papa Bento XVI, no item 42 da exortação apostólica, nos ensina que é preciso entender que o desígnio de Deus vai progressivamente se manifestando ao longo da história, atuando lentamente ao longo de etapas sucessivas, não obstante a resistência dos homens. Deus escolhe um povo e, pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas que vivem em meio a fatos e usos como, por exemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentas, extermínio de populações. Entretanto, no Antigo Testamento, a pregação dos profetas ergue-se vigorosamente contra todo o tipo de injustiça e de violência, coletiva ou individual, tornando-se assim o instrumento da educação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho e a vinda de Jesus.

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Conforme o site apologetica.net.br (link abaixo), no antigo testamento, os israelitas massacraram muitos povos pagãos em suas guerras, o que incluía a população inocente como mulheres, crianças e idosos. Deus mesmo ordenou muitos desses massacres como se pode vem em Êxodo 32:27, Números 25:4, Números 31:17-18, Deuteronômio 2:33-34, Isaías 13:18, Jeremias 19:9 e Ezequiel 9:6. Isso, de fato, é bem chocante. Entretanto, é errado pensar que o Deus de amor revelado por Jesus Cristo no novo testamento é diferente do Deus revelado pelos profetas, visto por muitos como “mau” e “sanguinário”.
O que existe, na verdade, é um “aparente conflito”. Em primeiro lugar, é preciso entender que a inspiração divina está sujeita ao arcabouço histórico e cultural da época e às limitações pessoais dos escritores sagrados (dos profetas). Isso porque, Deus não violenta a natureza humana, não os trata como uma “mera caneta” ou um “mero objeto”. Uma das características da linguagem semita era o uso de hipérboles. O israelita era muito propenso às expressões fortes, exageradas e contrastantes. Eles procuravam mostrar o caminho reto, mas faziam isso imbuídos de toda a sua carga cultural. Eles também não diferenciavam entre a pessoa que fazia o mal e o mal em si.
Só é possível perceber a revelação divina na Bíblia, como um todo, observando a direção geral da mesma, a seta para onde ela aponta, passando pelas diversas fases da evolução moral do povo israelita ao longo de gerações. O antigo testamento aponta para o seu ápice, Jesus Cristo, o Messias.
O sofrimento de tantos inocentes é um mistério, mas sabemos que a bondade de Deus para com elas é infinitamente maior do que a nossa, auferindo delas méritos para a salvação de incontáveis almas. Precisamos entender que, para Deus, o bem maior não é a vida aqui na terra, mas a salvação da alma. É por isso que Jesus Cristo, o Inocentíssimo por excelência, se imolou por nossos pecados para nos salvar.
Não podemos ignorar que no oriente antigo, independente da religião, o povo vencedor de uma guerra tinha o direito de dispor das posses e da vida dos vencidos, mesmo de mulheres e crianças inocentes. Os monumentos e os textos assírios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedâneos para os pés dos monarcas, etc. Na própria Sagrada Escritura, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram os ventres das mulheres israelitas grávidas (Amós I, 13).
No caso dos hebreus, a fim de manter incontaminada as suas crenças, não havia outra alternativa que não apartar-se de forma absoluta dos demais povos; a experiência mais de uma vez comprovou que, ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra, os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. Apoiando-se nestas ideias, eis como o legislador sagrado incutia o hérem a Israel (Deuteronômio XX, 16-18): “Quanto àquelas cidades porém, que te hão de ser dadas, nenhum absolutamente deixarás com vida. Mas passá-los-ás todos ao fio de espada; convém a saber, aos heteus e aos amorreus, e aos cananeus, aos fereseus, e aos heveus, e aos jesubeus, assim como o Senhor teu Deus te mandou: para que não suceda que vos ensinem a cometer todas as abominações, que eles mesmos fizeram a seus deuses, e venhais a pecar contra o Senhor vosso Deus”.
Mas mesmo tolerando o hérem, Deus dava a entender que esse procedimento era imperfeito, conforme Deuteronômio 20, 10-18 (humanização do código militar de Israel substituindo o derramamento de sangue por tributo, poupando-se também mulheres e crianças), Deuteronômio 21, 10-14 (A mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como esposa de um judeu, que a trataria com todo carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado), Juízes 21, 13 e 2Samuel 20, 14-22 (exortações à brandura contra inimigos não-cananeus),
Há casos também em que o próprio Deus repreende os israelitas pelos massacres excessivos como em Oséias 1, 4s, o que mostra que os constantes derramamentos de sangue cometidos pelo povo de Deus nem sempre corresponderam ao Plano Divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o Templo de Javé em Jerusalém, recebeu formal recusa de Deus, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o Templo, santuário da paz, fosse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (1Crônicas 22, 8-10; 28, 3).
À medida, porém, que ia se elevando o nível cultural e moral dos hebreus, abrandava-se a praxe do hérem; assim na época de Esdras (século V/VI), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e sua exclusão das assembléias do povo (Esdras X, 8).
Pois bem, Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo semelhante ao que se verifica com toda criança: nos primórdios da história, os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida, a qual através dos séculos foi se tornando mais apurada, minuciosa.
Não há dúvida, o Senhor poderia ter revelado tudo que a Lei Natural nos incute; preferiu, porém, um lento desabrochar que, de resto, mais condizia com a maneira como Ele criou e rege o mundo.
Em conclusão: a História Sagrada é, sim, apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram, um movimento ascendente contínuo cujo ápice é Jesus Cristo, o Messias prometido nas Escrituras.



Obs.: As expressões no texto entre colchetes ou parêntesis destacadas na cor azul não fazem parte do original.