464. O acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que seja o resultado de uma mistura confusa do divino com o humano. Ele fez-Se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Esta verdade da fé, teve a Igreja de a defender e clarificar no decurso dos primeiros séculos, perante heresias que a falsificavam. [...] 467. [...] Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único, que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é abolida pela sua união; antes, as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas numa só pessoa e numa só hipóstase» (94). [...] 470. Uma vez que, na união misteriosa da Encarnação, «a natureza humana foi assumida, não absorvida» (101), a Igreja, no decorrer dos séculos, foi levada a confessar a plena realidade da alma humana, com as suas operações de inteligência e vontade, e do corpo humano de Cristo. Mas, paralelamente, a mesma Igreja teve de lembrar repetidamente que a natureza humana de Cristo pertence, como própria, à pessoa divina do Filho de Deus que a assumiu. Tudo o que Ele fez e faz nela, depende de «um da Trindade». Portanto, o Filho de Deus comunica à sua humanidade o seu próprio modo de existir pessoal na Santíssima Trindade. E assim, tanto na sua alma como no seu corpo, Cristo exprime humanamente os costumes divinos da Trindade (102): «O Filho de Deus trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (103).
471. Apolinário de Laodiceia afirmava que, em Cristo, o Verbo tinha ocupado o lugar da alma ou do espírito. Contra este erro, a Igreja confessou que o Filho eterno assumiu também uma alma racional humana (104). 472. Esta alma humana, que o Filho de Deus assumiu, é dotada de um verdadeiro conhecimento humano. Como tal, este não podia ser por si mesmo ilimitado. Exercia-se nas condições históricas da sua existência no espaço e no tempo. Foi por isso que o Filho de Deus, fazendo-Se homem, pôde aceitar «crescer em sabedoria, estatura e graça» (Lc 2, 52) e também teve de Se informar sobre o que, na condição humana, deve aprender-se de modo experimental (105). Isso correspondia à realidade do seu abatimento voluntário na «condição de servo» (106). 473. Mas, ao mesmo tempo, este conhecimento verdadeiramente humano do Filho de Deus exprimia a vida divina da sua pessoa (107). «A natureza humana do Filho de Deus, não por si mesma, mas pela sua união com o Verbo, conhecia e manifestava em si tudo o que é próprio de Deus» (108). É o caso, em primeiro lugar, do conhecimento íntimo e imediato que o Filho de Deus feito homem tem do seu Pai (109). O Filho também mostrava, no seu conhecimento humano, a clarividência divina que tinha dos pensamentos secretos do coração dos homens (110). 474. Pela sua união com a Sabedoria divina na pessoa do Verbo Encarnado, o conhecimento humano de Cristo gozava, em plenitude, da ciência dos desígnios eternos que tinha vindo revelar (111). O que neste domínio Ele reconhece ignorar (112) declara, noutro ponto, não ter a missão de o revelar (113). 475. De igual modo, a Igreja confessou, no sexto Concilio ecumênico, que Cristo possui duas vontades e duas operações naturais, divinas e humanas, não opostas mas cooperantes, de maneira que o Verbo feito carne quis humanamente, em obediência ao Pai, tudo quanto decidiu divinamente com o Pai e o Espírito Santo para a nossa salvação (114). A vontade humana de Cristo «segue a sua vontade divina, sem fazer resistência nem oposição em relação a ela, antes estando subordinada a essa vontade omnipotente» (115).
Ainda o seguinte, meus irmãos: "Se o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do mundo inteiro, a quem Deus disse desde a criação do mundo [Deus disse ao Filho]: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança", como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens? Aprendei. Os profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu respeito. E ele a fim de destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, teve que se encarnar e sofrer, a fim de cumprir a promessa feita aos pais e preparar para si o povo novo e demonstrar, durante sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria, depois de ter realizado a ressurreição". [pág. 292]
[...]
De fato, a Escritura fala a nosso respeito, quando ele diz ao Filho: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar." E, vendo que nós éramos boa criação, o Senhor disse: "Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra." Foi isso que ele disse ao Filho. [pág. 294/295]
“Eu prossegui: — Amigos, apresentar-vos-ei outro testemunho das Escrituras sobre um princípio anterior a todas as criaturas que Deus gerou, [Pr 8,22, tornou-se, a partir dos apologistas, uma referência fundamental para demonstrar a preexistência do Verbo-Sabedoria e seu papel na criação] certa potência racional de si mesmo, que é chamada pelo Espírito Santo Glória do Senhor, às vezes Filho, outras Sabedoria, ou ainda Anjo ou Deus, Senhor, Palavra. [...] Entretanto, será a palavra da sabedoria que me dará testemunho, pois ela é esse mesmo Deus gerado pelo Pai do universo e que subsiste como palavra, sabedoria, poder e glória daquele que a gerou. Ela diz o seguinte, pela boca de Salomão: "Depois de anunciar-vos o que acontece cada dia, ater-me-ei a enumerar-vos as coisas que existem desde a eternidade. O Senhor me gerou como princípio de seus caminhos para as suas obras. Alicerçou-me antes do tempo, no princípio, antes de fazer a terra, antes de criar os abismos, antes de fazer brotar as fontes das águas, antes de assentar as montanhas, antes de todas as colinas, ele me gerou. O Senhor fez as regiões, a terra inabitada e os montes que se habitam debaixo do céu. Quando ele preparava o céu, eu lhe fazia companhia; quando colocava seu trono acima dos ventos, quando dava solidez às nuvens do alto, quando solidificava as fontes do abismo, quando firmava os alicerces da terra, junto a ele estava eu, harmonizando. Era comigo que ele se alegrava; em todo o tempo, dia a dia, eu me regozijava em sua presença, porque ele se regozijava terminando a terra e se regozijava nos filhos dos homens.” [pág. 204/205]
“Amigos, foi do mesmo modo que a palavra de Deus se expressou pela boca de Moisés ao indicar-nos que o Deus que se manifestou a nós falou a mesma coisa na criação do homem, dizendo estas palavras: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. [...] Para que não deturpeis as palavras citadas e digais o que dizem os vossos mestres, que Deus se dirigiu a si mesmo ao dizer "façamos", como nós, ao fazer algo, dizemos "façamos", ou que falou com os elementos, isto é, com a terra e outras coisas de que sabemos que o homem é composto, e a eles disse "façamos", citar-vos-ei agora outras palavras do mesmo Moisés. Através delas, sem nenhuma discussão possível, temos de reconhecer que Deus conversou com alguém que era numericamente distinto e igualmente racional. Ei-las: "Eis que Adão se tornou como um de nós para conhecer o bem e o mal" [Gn 3,22]. Portanto, ao dizer "como um de nós", indica o número dos que entre si conversam e que, no mínimo, são dois. Não posso aceitar como verdadeiro o que dogmatiza aquela que entre vós se chama heresia, nem os seus mestres são capazes de provar que Deus fala com anjos ou que o corpo humano é obra de anjos. Mas esse gerado, emitido realmente pelo Pai, estava com ele antes de todas as criaturas e com ele o Pai conversa, como nos manifestou a palavra por meio de Salomão, ao dizer-nos que, antes de todas as criaturas, foi gerado por Deus como princípio e progênie esse mesmo que é chamado sabedoria por Salomão.” [pág. 205/206]
“E as palavras de Davi: "Nos esplendores dos teus santos, do ventre, antes do astro da manhã, eu te gerei.” [pág. 205/207]
“Existem outras expressões semelhantes ditas pelo legislador e pelos profetas, mas eu creio que já citei o suficiente. Quando meu Deus diz: "O Deus subiu de Abraão", ou: "Deus falou a Moisés", ou: "O Senhor desceu para ver a torre que os filhos dos homens haviam construído", ou ainda quando diz: "Deus fechou a arca de Noé por fora", não penseis que é o Deus ingênito que sobe e desce de algum lugar. De fato, o Pai inefável Senhor de todas as coisas não chega a alguma parte e não passeia, nem dorme ou se levanta, mas permanece sempre em sua própria região, onde quer que ela se situe, olhando com olhar penetrante, ouvindo com agudez, não com olhos e ouvidos, mas por um poder inefável. Ele vigia tudo e tudo conhece, e ninguém de nós lhe está oculto. Sem que tenha que mover-se, ele que não cabe em nenhum lugar, nem no mundo inteiro e que já existia antes que o mundo existisse. Como então, poderia ter falado a alguém, aparecer a alguém, circunscrever-se a uma pequena porção de terra, se o povo não pôde resistir à glória de seu enviado no Sinai, se o próprio Moisés não pôde entrar na tenda que ele havia construído, pois estava cheia da glória de Deus, se o sacerdote não teve forças para ficar em pé diante do Templo quando Salomão levou a arca para a casa que o próprio Salomão havia construído em Jerusalém? Portanto, nem Abraão, nem Isaac, nem Jacó, nem qualquer outro homem jamais viu aquele que é Pai inefável e Senhor absoluto de todas as coisas e também do próprio Cristo, mas viu seu Filho, que também é Deus por vontade daquele, e Anjo por estar a serviço de seus desígnios, aquele mesmo que o Pai quis que nascesse homem por meio da virgem e que, em outro tempo, se tornou fogo para falar com Moisés a partir da sarça. De fato, se não entendemos dessa forma as Escrituras, ter-se-á que admitir que o Pai e Senhor do universo não estava no céu quando Moisés nos conta. "O Senhor fez chover sobre Sodoma fogo e enxofre da parte do Senhor, desde o céu" [Gn 19,24]. A mesma coisa que Davi nos diz: "Levantai, ó príncipes, as vossas portas; levantai-vos, portas eternas, e entrará o rei da glória" [Sl 24,7]. Por fim, quando nos diz: "Disse o Senhor ao meu Senhor Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo para teus pés" [Sl 110,1]. Demonstrei profundamente que Cristo, que é Senhor e Deus, Filho de Deus, antes apareceu prodigiosamente como Homem, como Anjo e também na glória do fogo, como na visão da sarça e no julgamento de Sodoma. Todavia, citei novamente tudo o que tinha escrito antes, tomado do Êxodo, tanto sobre a visão da sarça, como sobre o nome de Jesus, e continuei.” [pág. 304/305]
Após dizer aos seus amados discípulos para que eles tivessem ânimo porque ele vencera o mundo, levanta os olhos para o céu e diz: "Pai, e chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti; assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo" [Jo 17,1-26]. [pág. 85)
No conteúdo da sua longa oração, o mestre de Nazaré revelou algumas coisas perturbadoras. Entre elas, disse que sua existência extrapolava sua idade temporal, sua idade biológica. Tinha pouco mais de 33 anos, mas disse: "Glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo" [Jo 17,1-26]. A palavra grega usada no texto para mundo significa "cosmos". Cristo revelou que antes que houvesse o mundo, o cosmos, ele estava lá, junto com o Pai na eternidade passada. Há bilhões de galáxias no universo, mas antes que houvesse o primeiro átomo e a primeira onda eletromagnética, ele estava lá. Por isso, João disse que nada tinha sido feito sem ele. Aqui novamente ele afirmou sua natureza divina, postulando que, como Deus filho, sua vida extrapolava os limites do tempo. Expressou que sua história ultrapassava os parâmetros do espaço e do tempo contidos na teoria de Einstein. [pág. 86/87)
Certa vez, os fariseus o indagaram seriamente sobre sua origem. O mestre fitou-os e golpeou-os com a seguinte resposta: "Antes de Abrãao existir, eu sou". Assombrou-os a tal ponto com essa resposta que eles desejaram matá-lo. Não disse que antes de Abraão existir "eu já existia" mas sim que "Eu sou". Ao responder "Eu sou" não queria dizer apenas que era temporalmente mais velho do que Abraão, o pai dos judeus, mas usou uma expressão incomum para se referir a si mesmo. A mensagem foi entendida por aqueles estudiosos da lei. Eles sabiam que nada podia ser tão ousado quanto usar a expressão "Eu sou". Por que? Porque usou uma expressão que somente foi usada no Velho Testamento pelo próprio Deus de Israel, para descrever sua natureza eterna. Ao se definir, Deus disse a Moisés, no monte Sinai. "Eu sou o que sou ". [pág. 87)
Aos olhos da cúpula judaica, se alguém dissesse que era mais velho do que Abraão, que morrera há séculos, ela o diagnosticaria. Como um louco, mas se usasse a expressão "Eu sou" seria considerado como o mais insolente blasfemo. Cristo, ao dizer tais palavras, estava declarando que tinha as mesmas dimensões alcançadas pela conjugação dos tempos verbais do verbo ser: ele é, era, será. [pág. 88)
Em qualquer tempo ele "é". O passado, o presente e o futuro não o limitam. As respostas do mestre são curtas, mas suas implicações deixam embaraçado qualquer pensador. [pág. 88)
João, na sua velhice, fez um relato surpreendente sobre Jesus. Descreveu. "Tudo foi feito nele (Cristo) e sem ele nada do que foi feito se fez”. Segundo o pensamento desse discípulo, o próprio Jesus projetou junto com o Pai a existência, o mundo animado e inanimado. Ambos, Pai e filho, colocaram o cosmos numa "prancha de arquitetura". Ambos foram responsáveis pela autoria da existência, por isso disse que sem ele nada se realizou. [pág. 205)