Revelacaocatolica.com
Catecismo da Igreja Católica

410. Depois da queda, o homem não foi abandonado por Deus. Pelo contrário, Deus chamou-o (304) e anunciou-lhe, de modo misterioso, que venceria o mal e se levantaria da queda (305). Esta passagem do Génesis tem sido chamada « Proto-Evangelho» por ser o primeiro anúncio do Messias redentor, do combate entre a Serpente e a Mulher, e da vitória final dum descendente desta. 411. A Tradição cristã vê nesta passagem um anúncio do «novo Adão» (306) que, pela sua «obediência até à morte de cruz» (Fl 2, 8), repara super‑abundantemente a desobediência de Adão (307). Por outro lado, muitos santos Padres e Doutores da Igreja vêem na mulher, anunciada no proto-Evangelho, a Mãe de Cristo, Maria, como «nova Eva». Ela foi a primeira a beneficiar, dum modo único, da vitória sobre o pecado alcançada por Cristo: foi preservada de toda a mancha do pecado original (308) e, durante toda a sua vida terrena, por uma graça especial de Deus, não cometeu qualquer espécie de pecado (309). [...] 508. Na descendência de Eva, Deus escolheu a Virgem Maria para ser a Mãe do seu Filho. «Cheia de graça», ela é «o mais excelso fruto da Redenção» (182). Desde o primeiro instante da sua conceição, ela foi totalmente preservada imune da mancha do pecado original, e permaneceu pura de todo o pecado pessoal ao longo da vida. [...] 511. A Virgem Maria «cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (184). Pronunciou o seu «fiat» – faça-se – «loco totius humanae naturae – em vez de toda a humanidade» (185): pela sua obediência, tornou-se a nova Eva, mãe dos vivos. [...] 726. No termo desta missão do Espírito, Maria torna-se a «Mulher», a nova Eva «mãe dos vivos», Mãe do «Cristo total» (97). É como tal que Ela está presente com os Doze, «num só coração, assíduos na oração» (Act 1, 14), no alvorecer dos «últimos tempos», que o Espírito vai inaugurar na manhã do Pentecostes, com a manifestação da Igreja.

Concílio Vaticano II - Papa Paulo VI (1965) (Constituição Lumen Gentium – Capítulo VIII – A bem-aventurada virgem Maria Mãe de Deus no mistério de cristo e da igreja)

55. A Sagrada Escritura do Antigo e Novo Testamento e a venerável Tradição mostram de modo progressivamente mais claro e como que nos põem diante dos olhos o papel da Mãe do Salvador na economia da salvação. Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo ao mundo. Esses antigos documentos, tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da plena revelação ulterior, vão pondo cada vez mais em evidência a figura de uma mulher, a Mãe do Redentor. A esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente (Gen 3,15), feita aos primeiros pais caídos no pecado. Ela é, igualmente, a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emanuel (Is 7,14; Miq 5, 2-3; Mt 1, 22-23). É a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus. Com ela, enfim, excelsa Filha de Sião, passada a longa espera da promessa, se cumprem os tempos e se inaugura a nova economia da salvação, quando o Filho de Deus dela recebeu a natureza humana, para libertar o homem do pecado com os mistérios da Sua vida terrena.
Maria na Anunciação
56. Mas o Pai das misericórdias quis que a aceitação, por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a encarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida. É o que se verifica de modo sublime na Mãe de Jesus, dando à luz do mundo a própria Vida, que tudo renova. Deus adornou-a com dons dignos de uma tão grande missão; e, por isso, não é de admirar que os santos Padres chamem com frequência à Mãe de Deus «toda santa» e «imune de toda a mancha de pecado», visto que o próprio Espírito Santo a modelou e d"Ela fez uma nova criatura (175). Enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores de uma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como «cheia de graça» (Luc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: «eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Luc 1,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens. Como diz S. Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano» (176). Eis porque não poucos, Padres afirmam com ele, nas suas pregações, que «o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, desatou-o a virgem Maria com a sua fé» (177); e, por comparação com Eva, chamam Maria a «mãe dos vivos»(178) e afirmam muitas vezes: «a morte veio por Eva, a vida veio por Maria» (179).

Frei Inácio Larrañaga (Espanha – 1928-2013). Obra: "O silêncio de Maria. Edições Paulinas. 39ª edição. 2012. 233p." (pág. 200)

“Com grande cavalheirismo, não isento de carinho, Jesus chama de mulher a samaritana (cf. Jo 4,21), Maria de Mágdala (cf. Jo 20,15), a cananeia (cf. Mt 15,28) e outras. Mas chamar de mulher a samaritana ou a cananeia não era o mesmo que fazê-lo com sua Mãe. Portanto, esse apelativo tem um alcance diferente e messiânico. A palavra mulher, aqui, é uma imensa evocação em que se agitam e se combinam diferentes cenas, pessoas e momentos da história salvífica. Parece que na mente do evangelista está presente Eva, chamada a "mãe dos viventes". Está presente aquela outra "mulher" (Gn 3,15) que com sua Descendência haveria de desmascarar as mentiras do inimigo. Está presente a "mulher grávida" do Apocalipse, cujo filho matará o dragão. Está presente a Filha de Sião, figura e povo de todos os resgatados do cativeiro. Está presente aquela outra "Mulher" do futuro, a Igreja, que, como Maria, é também Virgem e Mãe. A "Mulher" do Calvário assume, resume e expressa todas essas figuras. Ela é a verdadeira "Mãe dos viventes", terra onde germina o "primogênito numa multidão de irmãos" (Rm 8,29). Fonte inesgotável de onde nasce o povo dos redimidos. Tudo fica resumido, aqui e agora, quando Maria recebe alguns filhos a que não deu à luz e Cristo lhe dá, como filhos, todos os seus discípulos, na pessoa de João.”

Scott Hahn. Obra: "Salve, Santa Rainha - A mãe de Deus na palavra de Deus. Ed. Cleófas. 2015." (pág. 36/39)

“Jesus Chega à festa de casamento com Sua mãe e Seus discípulos. Uma celebração de casamento, na cultura judaica da época, normalmente durava uma semana. No entanto, vemos que, neste casamento, o vinho acabou muito cedo. Neste momento, a mãe de Jesus aponta o óbvio: " não tem mais vinho" (Jo 2,3), numa simples constatação do fato. Jesus, porém, parece responder de uma forma meio desproporcional à simples observação de sua mãe: "Ó mulher", diz Ele, “isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou". [...] Voltemos um instante à resposta inicial de Jesus. Você percebeu como Ele a chamou? Ele não a chamou "mãe" ou ainda "Maria", mas "Mulher".
Em primeiro lugar, devemos salientar que, uma vez que Jesus em toda a Sua vida foi obediente à Lei, é improvável que, algum dia, mostrasse desonra para com Sua mãe, violando, assim, o quarto mandamento.
Em segundo lugar, Jesus voltará a tratar Maria como "mulher" em várias outras circunstâncias bem diferentes. Por exemplo, quando Ele estava pendente na cruz, morrendo, e chamou Sua mãe de "mulher", quando a dá como mãe ao Seu discípulo amado, João (Jo 19,26). Certamente, neste caso, não significa qualquer tipo de censura ou desonra.
No entanto, perderemos o sentido da impecabilidade de Cristo se reduzirmos a palavra "mulher" a um insulto. O uso que Jesus faz dessa palavra evoca a expressão do Gênesis, pois "Mulher", aí, é o nome que Adão dá a Eva (Gn 2,23). Jesus, então, indica que Maria é a Eva do Novo Adão, o que dá um destaque à festa de casamento da qual estavam participando.
A palavra "mulher" redefine as relações de Maria não somente com Jesus, mas também com todos os que têm fé. Quando Jesus deu Sua mãe aos cuidados do discípulo amado, na realidade a deu aos discípulos amados de todos os tempos. Como Eva, a quem o livro do Gênesis (3,20) chama de "mãe dos viventes", Maria é mãe de todos os que têm uma nova vida pelo Batismo.
A figura de Eva reaparece depois no Novo Testamento, no livro do Apocalipse, que também é atribuído a João Evangelista. Aí, no capítulo 12, encontramos "a mulher revestida de sol" (v. l), que confronta "a primitiva serpente, chamada demônio" (v.9). Essas imagens remetem ao Gênesis, onde Eva enfrenta a serpente demoníaca no Jardim do Éden e onde Deus amaldiçoa a serpente, prometendo o seguinte: "colocar inimizade entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a Dela" (Gn 3, 15). E ainda, as imagens do Apocalipse apontam também para a Nova Eva, a qual deu à luz um Filho, "um menino", que iria "reger todas as nações" (12,5). Aquele menino só poderia ser Jesus; e, a mulher só poderia ser Sua mãe, Maria. No Apocalipse, a primitiva serpente ataca a nova Eva porque a profecia de Gênesis 3,15 está fresca em sua memória. Entretanto, a nova Eva prevalece sobre o mal, ao contrário do seu tipo bíblico do passado no jardim do Éden.”



Obs.: As expressões no texto entre colchetes ou parêntesis destacadas na cor azul não fazem parte do original.