Joseph Ernest Renan (1823-1892). Obra: "Vida de Jesus. In: Coleção obra-prima de cada autor. Ed. Martins Claret. São Paulo, 2003. 528p." (pág. 403/404)“O reino de Deus, tal como o concebemos, difere notavelmente da aparição sobrenatural que os primeiros cristãos esperavam ver surgir das nuvens. Mas o sentimento que Jesus introduziu no mundo é bem o nosso. Seu perfeito idealismo é a mais alta regra da vida desapegada e virtuosa. Ele criou o céu das almas puras, onde se encontra o que se procura em vão na terra, perfeita nobreza dos filhos de Deus, a santidade confirmada, a total abstração dos pecados do mundo, a liberdade, enfim que a sociedade real exclui como uma impossibilidade, e que só se amplia no domínio do pensamento. O grande mestre dos que se refugiam nesse paraíso ideal ainda é Jesus. Ele foi o primeiro a proclamar a realeza do espírito; o primeiro a dizer, pelo menos por seus atos: "Meu reino não é deste mundo".
A fundação da verdadeira religião é bem obra sua. Depois dele, basta apenas desenvolvê-la e fecundá-la. Desse modo, "cristianismo" tornou-se quase sinônimo de "religião".
Tudo o que fizer fora dessa grande e boa tradição cristã será estéril. Jesus fundou a religião na humanidade, como Sócrates nela fundou a filosofia, como nela Aristóteles fundou a ciência. Houve filosofia antes de Sócrates e ciência antes de Aristóteles. Desde Sócrates e desde Aristóteles a filosofia e a ciência fizeram progressos enormes. Mas tudo foi construído sobre o alicerce que eles estabeleceram. Da mesma forma, antes de Jesus o pensamento religioso atravesara muitas revoluções; desde Jesus, ele fez grandes conquistas. Contudo, não se saiu nem sairá da noção essencial que Jesus criou,
ele fixou para sempre a maneira como deve ser concebido o culto puro. A religião de Jesus não é limitada. A Igreja teve suas épocas e suas fases: ela se fechou em símbolos que só tiveram ou só terão um tempo — Jesus fundou a religião absoluta, não excluindo nada, não determinando nada que não fosse sentimento. Esses símbolos não são dogmas fixos; são imagens suscetíveis de interpretações indefinidas.
[...] Quaisquer que possam ser as transformações do dogma, Jesus permanecerá, em matéria de religião, o criador do sentimento puro. O Sermão da Montanha não será ultrapassado. Nenhuma revolução fará com que nos desliguemos, em matéria de religião, da grande família intelectual e moral à frente da qual brilha o nome de Jesus. Nesse sentido, somos cristãos, mesmo quando nos separamos, em quase todos os pontos, da tradição crista que nos antecedeu.”