“Confia-se na luta pela existência, na morte dos seres fracos e na sobrevivência dos mais robustos e melhor dotados; conseqüentemente imagina-se um aumento continuo da perfeição dos seres. Em compensação temos comprovado que na luta pela vida, o acaso serve tanto aos fracos quanto aos fortes e que muitas vezes a astúcia supre o vigor com vantagem, que a fecundidade da espécie se encontra numa relação singular com as “chances” da destruição.” [pág. 273]
”Não há formas intermediárias. Pretendem que haja o desenvolvimento na evolução dos seres; mas falta qualquer fundamento a essa teoria. Cada tipo possui seus limites: além destes não há evolução. Até lá existe regularidade absoluta. Minhas principais opiniões. — Primeira proposição: o homem como espécie não está em progresso. Realizam-se tipos superiores, porém não se conservam. O nível da espécie não se eleva. Segunda proposição: o homem, enquanto espécie, não realiza um progresso em comparação com qualquer outro animal. O mundo animal e vegetal, em seu conjunto, não se desenvolve do inferior ao superior... Tudo se faz ao mesmo tempo, a torto e a direito, superpondo-se, contrapondo-se... As formas mais complexas e mais ricas — a expressão “tipo superior” nada expressa a mais — perecem mais facilmente: só as inferiores mantêm seu caráter imperecível em aparência. As primeiras são realizadas com bastante raridade e mantêm-se dificilmente: as últimas têm a seu favor uma fecundidade comprometedora. Na humanidade também os tipos superiores, os casos felizes da evolução, com alternativas de boa e má sorte, perecem mais facilmente. São expostos a toda espécie de decadência; são extremos, e isso basta para torná-los quase decadentes... A curta duração da beleza, do gênio de César, é "sui generis": tais qualidades não se transmitem por hereditariedade. O tipo é hereditário; nada tem de extremo, não é um “lanço de sorte”... Não há nisso qualquer fatalidade particular, qualquer “malquerer” da natureza, mas simplesmente a idéia do “tipo superior; o tipo superior representa uma complexidade infinitamente maior — uma soma maior de elementos coordenados: eis por que a desagregação é infinitamente mais provável. O “gênio” é a máquina mais sublime que existe — e por isso mesmo a mais frágil.” [pág. 274]
”O que mais me surpreende, quando passo em revista os grandes destinos da humanidade, é ter sempre diante dos olhos o contrário do que hoje vêem ou do que desejam ver Darwin e sua escola: a seleção em favor dos seres mais fortes e bem-nascidos, o progresso da espécie. Mas é precisamente o contrário o que entra pelos olhos: a supressão dos casos felizes, a inutilidade dos tipos melhor nascidos, a dominação inevitável dos tipos médios e até dos que estão abaixo da mediania. A menos que me demonstrem a razão que determina ser o homem exceção entre as criaturas, inclino-me a crer que a escola de Darwin errou em tudo. Essa vontade de potência, em que reconheço o fundo e o caráter de toda mutação, explica-nos por que a seleção não se faz precisamente em favor das exceções e dos acasos felizes: os mais fortes e os mais felizes são fracos, quando têm contra si os instintos organizados do rebanho, a pusilanimidade dos fracos e o grande número. Minha perspectiva total do mundo dos valores demonstra que, nos mais altos valores agora colocados acima da humanidade, não são os acasos felizes, os tipos de seleção que têm superado, mas os tipos de decadência. — Talvez nada haja de mais interessante neste mundo que este espetáculo "indesejado"...” [pág. 275]
”Vejo toda filosofia, vejo toda ciência de joelhos diante da realidade de uma luta pela vida que é o contrário dessa que ensina a escola de Darwin, quero dizer que percebo em toda a parte, na primeira fila, sobrando os que comprometem a vida, o valor da vida. O erro da escola de Darwin tornou-se para mim um problema: como se pode ser tão cego para enganar-se justamente neste caso?... Pretender que as espécies representam um progresso, é a afirmação mais desarrazoada do mundo: provisoriamente representam um nível. Se os organismos superiores se desenvolveram dos organismos inferiores, nenhum exemplo ao menos o demonstra... Vejo que os inferiores têm preponderância pelo número, pela astúcia, pelo ardil. Não vejo como uma mutação fortuita pode ser vantajosa, sobretudo numa espécie de tempo tão longa: pois então se precisaria explicar por que uma transformação fortuita adquiriu uma tal força.” [pág. 275]