Irmã Lúcia (Portugal, 1907-2005). Obra "Apelos da Mensagem de Fátima. Editora Secretariado dos Pastorinhos. 4ª edição (em português de Portugal). 2007. Fátima-Portugal. 300p." (pág. 128/129)Ensinamento da Irmã Lúcia: “Voltando à aparição de Nossa Senhora...
[em Fátima-Portugal, em 1917] Lembrei-me em seguida de Lhe perguntar por uma rapariga minha conhecida
[em Portugal, rapariga significa moça jovem], que tinha falecido havia pouco tempo;
a resposta dada por Nossa Senhora certifica-nos da verdade da existência do Purgatório, e é, ao mesmo tempo, mais uma prova da necessidade que temos de orar. Conta o texto sagrado que S. Pedro, aproximando-se de Jesus, perguntou-Lhe: «"Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?" Jesus respondeu: "Não te digo sete vezes, mas setenta vezes sete"». E continuou: «Por isso,
o reino dos Céus é comparável a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo ao princípio, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo ele com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido com a mulher, os filhos e todos os seus bens, para assim pagar a dívida. O servo lançou-se então aos seus pés, dizendo: "Concede-me um prazo e pagar-te-ei tudo" Levado pela compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe liberdade e perdoou-lhe a dívida. «Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem denários. Segurando-o, apertou-lhe o pescoço e sufocava-o, dizendo: "Paga o que me deves!" O outro caiu a seus pés, suplicando: "Concede-me um prazo e pagar-te-ei". Mas ele não concordou e mandou-o prender até que lhe pagasse tudo quanto lhe devia. «Testemunhas desta cena, os seus companheiros, contristados, foram contar ao seu senhor o que havia acontecido.
O senhor mandou-o, então, chamar e disse-lhe "Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim mo suplicaste; não devias igualmente ter piedade do teu companheiro como eu tive de ti?"
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que devia. Assim procederá convosco Meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar do fundo do coração a seu irmão» (Mt 18,21-35).”
[pág. 127] “Este servo, que pelo débito acumulado corria o risco de ser condenado, lançou-se aos pés do seu senhor, suplicando piedade e um tempo de espera para poder saldar as suas dívidas: «Concede-me um prazo e pagar-te-ei tudo». Ora,
nesta possibilidade de ter ainda um prazo para satisfazer pelo que falta pagar, podemos ver uma imagem do que se passa com o Purgatório: este é um tempo de espera para nos purificarmos das faltas leves não confessadas e para satisfazermos a reparação que ainda devamos pelos nossos pecados, porque, enquanto vivíamos neste mundo, não fizemos bastante penitência pelos mesmos.”
[pág. 128] “
A crença nesta possibilidade de expiação pelo pecado mesmo depois da morte, subjaz também numa narração do Segundo Livro dos Macabeus: «As tropas de Esdrim, que combatiam há muito tempo, já estavam fatigadas. Então Judas invocou o Senhor para que protegesse e dirigisse o combate. E começando a entoar cantos de guerra na língua pátria, caiu de surpresa sobre os soldados de Górgias e afugentou-os. Depois, reunindo Judas o seu exército, alcançou a cidade de Odolão e, chegado o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado. No dia seguinte, Judas e os seus companheiros foram levantar os corpos dos mortos, como era necessário, para os depositar na sepultura, ao lado de seus pais. Então, sob a túnica dos que tinham tombado. encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, proibidos aos Judeus pela Lei, e todos reconheceram que fora esta a causa da sua morte. Bendisseram, pois, a mão do Senhor, justo juiz, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração para Lhe implorar perdão completo do pecado cometido. «O nobre Judas convocou a multidão e exortava-a a evitar qualquer transgressão, tendo diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. E mandou fazer uma coleta, recolhendo cerca de dez mil dracmas, que enviou a Jerusalém, para que se oferecesse um sacrifício pelo pecado, obra digna e santa, inspirada na sua crença na ressurreição, porque,
se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. E acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente. Era este um pensamento santo e piedoso.
Por isso, pediu um sacrifício expiatório, para que os mortos fossem livres das suas faltas» (2 Mc 12,36-46). Esta passagem da Sagrada Escritura ajuda-nos a compreender melhor esta verdade da nossa fé que é o Purgatório, como um lugar de expiação onde as almas dos que morrem em graça se purificam das manchas do pecado, antes de serem admitidas na posse da bem-aventurança eterna junto de Deus.
Por isso, Nossa Senhora, respondendo à pergunta que Lhe dirigi sobre essa rapariga — a Amélia —, disse: «Está no Purgatório até ao fim do mundo». Talvez nos pareça muito, mas a misericórdia de Deus é sempre grande. Pelos nossos pecados, quanto O temos ofendido gravemente e com isso merecido o Inferno! Apesar disso, Ele perdoa-nos e concede tempo para pagarmos por eles e, mediante uma reparação e purificação, sermos salvos. Mais ainda, aceita as orações e sacrifícios que outros Lhe ofereçam, por aqueles que se encontrem nesse lugar de expiação.