“Numa análise cuidadosa do texto, é preciso lembrar que Jesus estabelece uma dupla corrente: uma descendente, de Maria para com João, "eis o teu filho", e outra ascendente, de João para Maria, "eis a tua mãe". Se fosse uma simples disposição familiar, estaríamos diante de uma redundância inútil, tanto do ponto de vista gramatical como psicológico. Quero dizer: se Jesus se tivesse preocupado apenas em tomar medidas testamentárias para os últimos anos da vida de sua Mãe, bastaria estabelecer uma só corrente, de João para com Maria: "João, cuida com carinho de minha mãe até o fim de seus dias". Seria suficiente. Podia ter evitado o resto. Para que estabelecer a corrente de Maria para com João? Era supérfluo.” [pág. 192]
“Na Palestina daqueles tempos e também nos nossos, havia um costume familiar de significação quase sagrada. Quando uma mulher ficava só, faltando-lhe o marido e filhos, recolhia-se automaticamente no seio da própria família; família no sentido amplo da palavra: parentela, clã. Dentro desse costume invariável, quando Maria ficou sem marido e sem o filho único, Jesus deveria tê-la confiado aos cuidados da família dos Zebedeus, por exemplo; à tutela de Cléofas, esposo de Maria que era "irmã" (prima) de Maria (cf. Jo 19,25), e que também estava junto da cruz; ou, no último dos casos, à tutela do mais velho dos Zebedeus, lembrando que os judeus eram muito sensíveis aos direitos derivados da antiguidade. Considerando os costumes daqueles tempos, o encargo que Jesus fez a João deve ter sido muito estranho, a menos que estivesse à vista, muito patente, outro sentido. Partindo do fato de que os que estavam junto à cruz não estranharam a decisão de Jesus, vemos que eles perceberam na disposição testamentária algo mais que a formalidade jurídica. Entre parênteses, encontramo-nos aqui diante de um formidável argumento indireto da virgindade perpétua de Maria. Se Maria tivesse tido outros filhos seria absurdo, jurídica e afetivamente, entregá-la aos cuidados de um estranho, ainda mais estabelecendo relações materno-filiais. É um fato incontestável, que não precisa de maiores esclarecimentos.” [pág. 193]
“Se Jesus quisesse encarregar João apenas do cuidado temporal de Maria, por que Maria foi interpelada em primeiro lugar? Se o encargo e a responsabilidade recaíam sobre João, a ele é que deveria se confrontar em primeiro lugar. O que é mais importante anuncia-se em primeiro lugar. Jesus estabelece primeiramente a relação descendente, recomendando a Maria que assuma e cuide de João como de um filho. Por aí se vê claramente que, nessa dupla relação, não se tratam nem interessam, em primeiro plano, os cuidados humanos - não tinha sentido que Maria cuidasse de João -, mas outra relação, mais transcendental. Deve admitir-se que, nas novas relações mãe-filho, o papel principal é desempenhado por Maria, e não por João; e que a relação que no futuro a uniria a João tinha nela o seu ponto de partida, como acontece com toda mãe em relação a seu filho. [...] Finalmente, como já dissemos, se Maria fosse entregue a João, João também foi entregue a Maria. Em outras palavras: assim como João devia preocupar-se com Maria, também Maria devia cuidar de João. Isso era tremendamente estranho, porque a mãe de João, Maria Salomé, também estava presente. Teria sido uma ofensa para ela. O contexto cênico indica, portanto, que as palavras paralelas encerram uma carga de profundidade muito mais rica do que seu sentido direto parece indicar. Essa série de esclarecimentos leva-nos a deduzir que Jesus, nesta cena, entrega uma Mãe à humanidade. " [pág. 194/195]
“Ora, depois de estabelecer a relação Maria-João, o evangelista acrescenta significativamente: "Depois disso, sabendo Jesus que tudo estava consumado" (Jo 19,28). Essas palavras indicam que, na opinião do evangelista, Jesus teve consciência de ter levado a cabo sua tarefa messiânica justa e imediatamente depois do episódio Maria-João. Daí se conclui que a disposição (cf. Jo 19,25-28) de Jesus tem alcance messiânico: nesse encargo, Jesus entrega Maria como Mãe à humanidade na pessoa de João. Concluímos também que essa entrega testamentária de sua Mãe à humanidade foi o último ato messiânico de Jesus, antes de haver consciência de ter cumprido tudo.” [pág. 195/196]
“De acordo com o significado do termo messiânico, entre Maria e todos os redimidos pela morte redentora de Cristo. Diz Gechter: Dado que a Mãe é uma mas os filhos são muitos, fica suficientemente claro que em João estavam representados todos os que Jesus queria redimir e todos os que, segundo o modelo de João, haveriam de crer nele. [...] Agora compreendemos também porque o Senhor não entregou sua Mãe aos cuidados do clã ou da família, ou aos cuidados de Salomé ou daquele grupo de mulheres que a teriam acolhido com veneração e carinho, mas, contra todos os costumes, aos cuidados de João.” [pág. 197/198]