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Beata Anna Catharina Emmerich (Alemanha, 1774-1824). Obra: "Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - As Meditações de Anna Catharina Emmerich. MIR Editora. São Paulo. 2015. 11ª Edição." (pág. 198/304)

“Tiraram então o cetro irrisório de Jesus, a cabaça, na qual se achavam as acusações escritas por Anás; depois de ler as acusações, Caifás lançou uma torrente de insultos e acusações contra Jesus, enquanto os esbirros e soldados em roda puxavam e empurravam Nosso Senhor; tinham nas mãos curtos bastões de ferro, em cuja extremidade havia um castão munido de muitas pontas; com esses bastões empurravam a Jesus, gritando: "Responde, abre a boca. Não sabes falar?" Fizeram tudo isso enquanto Caifás, ainda mais assanhado do que Anás, dirigiu um sem número de perguntas a Jesus, que, silencioso e paciente, olhava para baixo sem levantar os olhos para Caifás. Os soldados quiseram forçá-Lo a falar, davam-Lhe murros na nuca e nos lados, batiam-Lhe nas mãos e picavam-nO com sovelas; houve até um vil patife que lhe apertou com o polegar o lábio inferior sobre os dentes, dizendo: "Agora morde!". Seguiu-se a audição das testemunhas. Mas em parte era só uma gritaria confusa do populacho subornado ou então depoimentos de vários grupos dos mais assanhados inimigos de Jesus, entre os fariseus e saduceus de todo o país, reunidos por ocasião da festa. Proferiram de novo tudo o que Ele mil vezes tinha refutado; disseram: "Ele cura e expulsa os demônios pelo próprio demônio; não guarda o sábado; quebra o jejum; os seus discípulos não lavam as mãos; Ele seduz o povo; chama os fariseus de raça de víboras, de adúlteros; prediz a destruição de Jerusalém; tem relações com pagãos, publicanos, pecadores e mulheres de má vida; percorre o país, seguido de grande multidão de povo; faz-se chamar rei, profeta, até Filho de Deus, fala sempre do seu reino; contesta o direito do divórcio; proferiu ameaças sobre Jerusalém; chama-se pão da vida, ensina coisas inauditas, dizendo que quem não Lhe comer a carne e não Lhe beber o sangue, não poderá ser salvo. [...] Desse modo eram torcidas e viradas ao contrário todas as palavras, doutrina e parábolas de Jesus, para servirem de acusações, sempre interrompidas por insultos e brutalidades. Mas todos contradiziam e se confundiam uns aos outros. Um disse: "Ele se faz passar por rei”; outro: "Não, Ele se deixa apenas chamar assim e quando O quiseram proclamar rei, fugiu." Então gritou um: "Mas Ele diz que é Filho de Deus"; outro, porém, replicou: "Não, Ele não disse isso, chama-se Filho só por fazer a vontade do Pai." Alguns exclamaram que Ele os tinha curado, mas que depois recaíram; as curas eram apenas feitiço." Quase todas as acusações consistiam essencialmente em acusá-lo de feitiçaria. Algumas falsas testemunhas depuseram também sobre a cura do homem na piscina de Betesda, mas mentiram e confundiram-se. Os fariseus de Seforis, com os quais tinha discutido sobre o divórcio, acusaram-nO de falsa doutrina e até aquele jovem de Nazaré a quem Ele não quisera aceitar como discípulo, teve a vileza de comparecer ali para dar testemunho contra Ele. Acusaram-nO também de ter absolvido a adúltera no Templo e ter acusado os fariseus. Contudo não eram capazes de encontrar qualquer acusação solidamente provada. [...] Todas essas perguntas eram acompanhadas de incessantes crueldades dos soldados, que, com pancadas e murros, queriam forçar Jesus a responder. Só por milagre de Deus pôde Jesus aguentar tudo isso, para expiar os pecados do mundo." [pág. 198/200]

“Caifás, furioso pelos depoimentos contraditórios e a confusão das duas últimas testemunhas, levantou-se do assento, desceu alguns degraus, até onde estava Jesus e disse: “Não respondes nada a esta acusação?" Indignou-se, porém, de Jesus não o fitar; os soldados puxaram então, pelos cabelos, a cabeça de Nosso Senhor, para trás e bateram-lhe com os punhos por baixo do queixo. Mas o Senhor não levantou os olhos. Caifás, porém, estendeu com veemência as mãos e disse em tom furioso: "Conjuro-Te pelo Deus vivo, que nos digas se és o Cristo, o Messias, o Filho de Deus Bendito!"” [pág. 202]

“Jesus tinha de suportar, também nesse caminho, que os amigos nos abandonam na desgraça; pois os habitantes de Ofel estavam todos reunidos num certo lugar do caminho e quando viram Jesus tão humilhado e desfigurado, entre os soldados, levado com injúrias e maus tratos, ficaram também abalados na fé; não podiam imaginar o rei, o profeta, o Messias, o Filho de Deus em tão miserável estado. Os fariseus, a passar, ainda zombaram deles, por causa da afeição que dedicavam a Jesus: "Eis o vosso rei, saudai-O; agora deixais pender a cabeça, agora que Ele vai para a coroação e dentro em pouco subirá ao trono! Acabaram-se-Lhe os milagres, o sumo sacerdote deu-Lhe cabo do feitiço, etc." Aquela boa gente, que vira tantas curas milagrosas e recebera tantas graças de Jesus, ficou abalada na fé, pelo horrível espetáculo que lhe apresentavam as pessoas mais santas do país, o sumo sacerdote e o Sinédrio. Os melhores elementos retiraram-se duvidosos, os piores juntaram-se ao cortejo como podiam; pois a passagem em várias ruas estava impedida por guardas dos fariseus, para evitar qualquer tumulto.” [pág. 225]

“Desse modo fizeram espalhar os boatos mais contraditórios e assustadores, para irritar e sublevar o povo, enquanto outros emissários deram dinheiro aos soldados de Herodes, a fim de que maltratassem gravemente a Jesus, mesmo até O fazer morrer, pois antes desejavam que morresse do que Pilatos O soltasse. [...] Faziam tudo precipitadamente, empurrando-se uns aos outros, entre escárnios; os inimigos de Jesus tinham pago dinheiro a alguns deles, que no tumulto Lhe deram diversas pauladas na santa cabeça. Jesus fitava-os com os olhos suplicantes, suspirando e gemendo de dor; mas zombavam dele, imitando-Lhe os gemidos; a cada nova brutalidade rompiam em gargalhadas e insultos, não havia nenhum que Lhe mostrasse piedade. Tinha a cabeça toda banhada em sangue e vi-o cair três vezes, sob as pauladas, mas vi também uma aparição como de Anjos, que, chorando, desceram sobre Ele e lhe ungiram a cabeça. Foi-me revelado que sem esse auxílio de Deus, as pauladas teriam sido mortais.” [pág. 241/242]

“Cada vez mais enfurecidos, tornaram os príncipes dos sacerdotes e os inimigos de Jesus a trazê-Lo de novo de Herodes a Pilatos. Estavam envergonhados de não lhe ter conseguido a condenação e ter de voltar novamente para aquele que já O tinha declarado inocente. Por isso tomaram na volta outro caminho, cerca de duas vezes mais longo, para mostrá-Lo naquela humilhação em outra parte da cidade, para poder maltratá-Lo tanto mais pelo caminho e dar tempo aos agentes de concitarem o povo a agir conforme as maquinações tramadas. O caminho pelo qual conduziram Jesus, era mais áspero e desigual; acompanharam-nO, estimulando os soldados sem cessar a maltratá-lo. A veste derrisória, o longo saco, impedia o Senhor de andar; arrastava-se na lama, várias vezes caiu, embaraçando-se nele e era levantado cada vez com arrancos nas cordas, pauladas na cabeça e pontapés. Sofreu nesse caminho indizíveis insultos e crueldades, tanto daqueles que o conduziam, como também do povo; mas Ele rezava, pedindo a Deus que não O deixasse morrer, para poder terminar a sua Paixão e nossa Redenção.“ [pág. 245]

“Ao cabo de um quarto de hora deixaram os dois carrascos de açoitar Jesus; foram juntar-se a dois outros e beberam com eles. O corpo de Jesus estava todo coberto de contusões vermelhas, pardas e roxas e o sangue sagrado corria-Lhe por terra; agitava-se em movimentos convulsivos. De todos os lados se ouviam insultos e motejos.” [pág. 251]

“Os dois seguintes carrascos bateram em Jesus com flagelos: eram curtas correntes ou correias, fixas num cabo, cujas extremidades estavam munidas de ganchos de ferro, que arrancavam, a cada golpe, pedaços de pele e carne das costas. Oh! Quem pode descrever o aspecto horrível e doloroso deste suplício? [...] Como cães raivosos, caíram-Lhe os carrascos em cima, com os açoites; um tinha uma vara mais delgada na mão esquerda, com que Lhe batia no rosto. O corpo de Nosso Senhor formava uma só chaga, não havia mais lugar são. Ele olhava para os carrascos, com os olhos cheios de sangue, que suplicavam misericórdia, mas redobravam os golpes furiosos e Jesus gemia, cada vez mais fracamente: "Ai!" A horrível flagelação durara cerca de três quartos de hora, quando um estrangeiro, homem do povo, parente do cego Ctesifon, curado por Jesus, se aproximou precipitadamente da coluna, pelo lado de traz e, com uma faca em forma de foice na mão, gritou indignado: "Parai! Não flageleis este homem inocente até morrer! Os carrascos, meio embriagados, pararam espantados e o homem cortou rapidamente, como de um único golpe, as cordas de Jesus, que todas estavam seguras num prego de ferro, atrás da coluna; depois o estrangeiro fugiu e perdeu-se na multidão. Jesus, porém, caiu desfalecido, ao pé da coluna, sobre a terra empapada de sangue. Os carrascos deixaram-nO lá e foram beber, depois de chamar os auxiliares do carrasco, que estavam no posto de guarda, ocupados em trançar a coroa de espinhos.” [pág. 252]

“Vi várias vezes, durante a flagelação, aparecerem Anjos tristes em redor de Jesus; ouvi a oração que o Senhor dirigia ao Pai eterno, no meio dos tormentos e insultos, oferecendo-se para expiação dos pecados dos homens. Mas nesse momento, quando jazia, banhado em sangue, ao pé da coluna, vi um anjo, que lhe restituía as forças; parecia dar-Lhe um alimento luminoso.” [pág. 254]

“Foi pelas nove horas da manhã que acabou a flagelação.” [pág. 254]

“Depois Lhe puseram a coroa de espinhos na cabeça. Essa tinha dois palmos de altura, era muito espessa e trançada com arte; em cima tinha uma borda um pouco saliente. Puseram-Lha em redor da fronte, como uma ligadura e ataram-na atrás com muita força, de modo que formavam uma coroa ou um chapéu. Era artisticamente trançada de três varas de espinheiro, da grossura de um dedo, que tinham crescido alto, através dos espessos arbustos. Os espinhos, pela maior parte, foram propositalmente virados para dentro. Pertenciam a três diferentes espécies de espinheiros, que tinham alguma semelhança com a nossa cambroeira, o abrunheiro e espinheiro branco. Em cima tinham acrescentado uma borda, trançada de um espinheiro semelhante à nossa sarça silvestre e pela qual pegavam e puxavam brutalmente a coroa. Vi o lugar onde os meninos foram buscar esses espinhos. Puseram-Lhe também na mão um grosso caniço, com um tufo na ponta. Fizeram tudo isso com solenidade derrisória, como se O coroassem de fato rei. Tiravam-Lhe o caniço da mão e batiam com tanta força a coroa, que os olhos de Nosso Senhor se enchiam de sangue.” [pág. 257]

“Não posso relatar todas as torturas e ultrajes que os carrascos inventaram, para escarnecer o pobre Salvador. Ai! Jesus sofreu horrível sede; pois em consequência das feridas, causadas pela desumana flagelação, estava com febre e tremia; a pele e os músculos dos lados estavam dilacerados o deixavam entrever as costelas em vários lugares; a língua contraira-se-Lhe espasmodicamente; somente o sangue sagrado que lhe corria da fronte, compadecia-se da boca ardente, que se abria ansiosa. Mas aqueles homens horríveis tomaram-Lhe a boca divina por alvo de nojentos escarros. Jesus foi assim maltratado por cerca de meia hora e a tropa, cujas fileiras cercavam o pretório, aplaudia com gritos e gargalhadas.” [pág. 258]

“A rua estreita pela qual Jesus foi conduzido primeiro, tinha apenas a largura de alguns passos, e passava pelos fundos das casas, onde havia muita imundície. Jesus teve que sofrer muito ali; os carrascos andavam mais perto dEle; das janelas e dos buracos dos muros O vaiava a gentalha; escravos que lá trabalhavam, atiravam-Lhe lama e restos imundos da cozinha; patifes perversos derramavam-Lhe em cima água suja e fétida dos esgotos; até crianças, instigadas pelos velhos, juntavam pedras nas roupinhas e saindo das casas e atravessando o séquito a correr, jogavam-nas no caminho, aos pés de Jesus. Assim foi Jesus tratado pelas crianças, que tanto amava, abençoava e chamava bem-aventuradas.” [pág. 276]

“Com auxílio sobrenatural, conseguiu Jesus afinal levantar a cabeça e esses homens abomináveis e diabólicos, em vez de O ajudarem e aliviarem, ainda Lhe impuseram novamente a coroa de espinhos. Levantaram-no depois brutalmente e puseram-Lhe a cruz de novo ao ombro. Com isso era obrigado a pender para o outro lado a cabeça, torturada pelos espinhos, para assim poder carregar o pesado patíbulo. Com novo e maior martírio subiu então pela rua, que dali em diante se tornava mais larga.” [pág. 277]

“Depois de terem pregado a mão direita de Nosso Senhor, viram os crucificadores que a mão esquerda, que tinham também amarrado ao braço da cruz, não chegava até o orifício do cravo, que tinham perfurado a duas polegadas distante das pontas dos dedos. Por isso ataram uma corda ao braço esquerdo do Salvador e, apoiando os pés sobre a cruz, puxaram a toda força, até que a mão chegou ao orifício do cravo. Jesus dava gemidos tocantes; pois deslocaram-Lhe inteiramente os braços das articulações; os ombros, violentamente distendidos, formavam grandes cavidades axilares, nos cotovelos se viam as junturas dos ossos. O peito levantou-se-Lhe e as pernas encolheram-se sobre o corpo. Os carrascos ajoelharam-se sobre os braços e o peito, amarraram-lhe fortemente os braços e cravaram-Lhe então cruelmente o segundo prego na mão esquerda; jorrou alto o sangue e ouviram-se os agudos gemidos de Jesus, por entre as pancadas do pesado martelo. Os braços do Senhor estavam tão distendidos, que formavam uma linha reta e não cobriam mais os braços da cruz, que subiam em linha oblíqua; ficava um espaço livre entre esses e as axilas do Divino Mártir. [...] Todo o corpo de nosso Salvador tinha-se contraído para o alto da, pela violenta extensão dos braços e os joelhos tinham-se-Lhe dobrado. Os carrascos lançaram-se então sobre esses e, por meio de cordas, amarraram-nos ao tronco da cruz; mas pela posição errada dos orifícios dos cravos, os pés ficavam longe da peça de madeira que os devia suportar. Então começaram os carrascos a praguejar e insultar. Alguns julgavam que se deviam furar outros orifícios para os pregos das mãos; pois mudar o suporte dos pés era difícil. Outros fizeram horrível troça de Jesus: "Ele não quer estender-se, disseram, mas nós Lhe ajudaremos." Atando cordas à perna direita, puxaram-na com horrível violência, até o pé tocar no suporte e amarraram-na à cruz. Foi uma deslocação tão horrível, que se ouvia estalar o peito de Jesus, que gemia alto: "Ó meu Deus! Meu Deus!" Tinham Lhe amarrado também o peito e os braços, para os pregos não rasgarem as mãos; o ventre encolheu-se-Lhe inteiramente, as costelas pareciam a ponto de destacar-se do esterno. Foi uma tortura horrorosa.” [pág. 296/297]

“A cabeça de Jesus, com a horrível coroa, tinha caído sobre o peito. O sangue que Lhe enchia os olhos, os cabelos, a barba e a boca ardente meio entreaberta. Mais tarde só podia levantar-se com indizível tortura, por causa 4a larga coroa de espinhos. O peito do Divino Mártir estava violentamente dilatado e alçado; os ombros, os cotovelos e os pulsos distendidos até saírem fora das articulações; o sangue corria-Lhe das largas feridas das mãos sobre os braços; o peito levantado deixava em baixo uma cavidade profunda; o ventre estava encolhido e diminuído; como os braços, estavam também as coxas e pernas horrivelmente deslocadas. Os membros estavam tão horrivelmente distendidos e os músculos e a pele a tal ponto esticados, que se podiam contar os ossos.” [pág. 303/304]



Obs.: As expressões no texto entre colchetes ou parêntesis destacadas na cor azul não fazem parte do original.