Maria Valtorta (Itália, 1897-1961). Obra: "O Evangelho como me foi revelado" (1944-1950) (Vol. 10 – Paixão e Morte de Jesus – Cap. 603. Meditações sobre a agonia no Getsêmani. Iluminações sobre os outros sofrimentos da Paixão – Página 16/17 – 15/02/1944) [Jesus diz:] E não houve tristeza maior e mais completa do que a Minha. Eu era um com o Pai. Ele me amou desde a eternidade como só Deus pode amar. Ele se deleitou em mim e encontrou sua alegria divina em mim. E eu O amei como só um Deus pode amar, e em Minha união com Ele encontrei Minha alegria divina.
A relação inefável que liga ab aeterno o Pai ao Filho não pode ser explicada a você nem mesmo pela Minha Palavra, porque embora seja perfeita, sua inteligência não é, e você não pode entender e saber o que Deus é até que esteja com Ele no céu. Bem, como a água que sobe e pressiona contra uma barragem, senti o rigor do Pai crescer de hora em hora para Mim.
Como prova contra os homens ignorantes, que não queriam entender quem Eu era, durante o tempo da Minha vida pública, Ele abriu o Céu três vezes: no Jordão, no Tabor e em Jerusalém na véspera da Minha Paixão. Mas Ele fez isso pelos homens, não para Me dar alívio. Eu já era o Expiador. Muitas vezes, Maria, Deus faz com que os homens conheçam um de seus servos, para que por ele sejam despertados e arrastados para Ele,
mas isso também acontece pelo sofrimento daquele servo. É ele quem, comendo o pão amargo do rigor de Deus, paga pessoalmente pelo conforto e salvação de seus irmãos. Não é assim?
As vítimas da expiação conhecem o rigor de Deus. Então vem a glória. Mas depois que a Justiça foi apaziguada. Não é o mesmo que acontece com Meu Amor, que beija Suas vítimas.
Eu sou Jesus, sou o Redentor, Aquele que sofreu e sabe, por experiência pessoal, como é doloroso ser olhado por Deus com severidade e ser abandonado por Ele, e nunca sou severo e nunca abandono ninguém. Eu consumo do mesmo jeito, mas pelo fogo do amor.
Quanto mais se aproximava a hora da expiação, mais eu sentia o Pai se afastar. Quanto mais eu estava separado do Pai, menos a Minha Humanidade se sentia amparada pela Divindade de Deus. E por isso sofri de todas as formas possíveis.
A separação de Deus traz medo, apego à vida, langor, cansaço, tédio. Quanto mais profundo, mais fortes são suas consequências. Quando é total, leva ao desespero. E quanto mais aquele que, por decreto de Deus, o experimenta, sem ter merecido, mais sofre, porque o espírito vivo sente a excisão de Deus, como a carne viva sente a excisão de um membro. É um estupor doloroso e prostrado que quem não o experimentou não consegue compreender.
Eu experimentei isso. Tive de saber tudo para poder suplicar ao Pai tudo a seu favor [a favor dos homens]. Até pelo seu desespero. Oh, experimentei o que significa dizer: “Estou sozinho. Todo mundo me traiu e me abandonou. Mesmo o Pai, mesmo Deus já não me assiste”.
E é por isso que eu opero misteriosas maravilhas da graça em pobres corações oprimidos pelo desespero, e peço aos Meus amados que bebam o cálice de uma experiência tão amarga, para que eles, aqueles que naufragam no mar do desespero, não possam declinar aceitar a cruz que ofereço como âncora e salvação, mas eles podem agarrá-la e eu posso levá-los à margem abençoada onde só reina a paz.